o que é comer transtorno

Comer transtornado: o que é e quem tem?

Está evidente que vivemos um paradoxo: excesso de comida de um lado, culto à magreza de outro. Resultado: aumento alarmante dos índices de obesidade e de transtornos alimentares, como compulsão, anorexia, bulimia, ortorexia, vigorexia. Sim, esses dois opostos mantêm relação estreita.

Numa sociedade onde quem manda e lucra são a indústria e a mídia, nada mais esperado do que sermos colocados nessa posição de conflito onde magreza é sinal de sucesso, mas tem tanta comida para comer.

Quem tem comer transtornado

Isso tem levado grande parte da população (50-80%, especialmente as mulheres), de várias culturas, a desenvolver comportamentos disfuncionais em relação à comida, que são comportamentos de risco para desenvolvimento de transtornos alimentares (TA), chamado comer transtornado. Ou seja, de 10 pessoas, entre 5-8 delas têm comportamentos alimentares arriscados e que trazem muito sofrimento em relação ao corpo e à alimentação.

Como o começa o comer transtornado

O comer transtornado costuma começar com a prática de dietas para emagrecer, o que normalmente inclui comportamentos disfuncionais para a busca de determinado peso ou forma corporal, e práticas inadequadas para controlar o peso e, portanto, um afastamento do que seria um comer normal. Os comportamentos típicos são: hábito de pular refeições, hábito de jejuar, de fazer restrição constante de calorias, alimentos ou nutrientes, como trigo, doces, carboidratos, necessidade de muito controle da própria alimentação e do corpo, sentimentos de culpa e descontrole após consumir algum alimento “proibido” ou cometer algum exagero, ainda que situacional, problemas de auto imagem corporal, categorização dos alimentos em bons e ruins, levando à crenças distorcidos sobre comer, sobre comida, e à presença de sofrimento em relação à alimentação.

Esses comportamentos hoje em dia são vistos quase como normais, corriqueiros, mas não são. Podem levar a complicações muito sérias, que são os TA’s. Aí é que entra a nutrição comportamental, como forma de prevenir os TA’s, como forma de recuperar um comportamento alimentar saudável e natural e para construir uma nova forma de se alimentar.

Consequências

Se essas pessoas continurem fazendo dietas restritivas ou dietas da moda, a tendência é que a sua relação com a comida piore cada vez mais, podendo causar sérias complicações psicológicas e sociais. Portanto, fica cada vez mais arriscado o desenvolvimento de TA’s e a tendência é que o ganho de peso perpetue. Ainda, a obesidade, os TA’s e o comer transtornado podem andarem juntos, podem migrar de um para outro.

O que contribui para o desenvolvimento do comer transtornado

Existem fatores que contribuem para o desenvolvimento de comer transtornado, como a preocupação com a imagem corporal, com o peso e a forma do corpo; a idealização da magreza; o grau de conhecimento sobre alimentos, nutrição, exercício, genética; a incapacidade de conseguir fazer sozinho boas escolhas alimentares e de praticar exercício; baixa autoestima; pouca habilidade de lidar com emoções consideradas desagradáveis de sentir (como raiva, medo, vergonha, tristeza, estresse…); influência das pessoas de convívio, da mídia e o tempo gasto com ela; tipo de alimentos disponíveis nos seus ambientes de convívio, expectativas distorcidas ou não alinhadas com a realidade sobre o peso corporal ideal.

O que fazer

Nesses casos, o melhor caminho é a nutrição comportamental, pois ela trabalha com o paciente diversos aspectos importantes, como:

  • O estímulo do senso crítico em relação às mídias que emitem mensagens sobre corpo, alimentos, nutrição e exercício;
  • Aprender a lidar com comentários de pessoas sobre o peso;
  • Trabalha a dissonância/incoerência entre crenças, conhecimentos e atitudes (saber que fruta é importante, mas não come, por exemplo);
  • Educa sobre o conhecimento correto e adequado sobre alimentos, nutrição e exercícios;
  • Orienta sobre porções adequadas dos alimentos sem estimular comportamentos radicais ou práticas inadequadas de perda de peso;
  • Estimula que o paciente se sinta capaz de tomar boas decisões sozinho;
  • Auxilia na construção da sua identidade, no reconhecimento de suas qualidades e do seu valor para além do peso e da forma do corpo, melhorando assim a autoestima;
  • Treina o paciente a ampliar seu repertório de maneira de lidar com emoções consideradas desagradáveis, sem tentar regulá-las com a comida;
  • Ajuda o paciente a resgatar seus sinais internos de fome e saciedade e a respeitá-los e a identificar os níveis de fome;
  • Encoraja o paciente a pedir ajuda de familiares e amigos ou a se posicionar mais firmemente sobre os seus próprios interesses;
  • Ajuda o paciente a aumentar o repertório de atividades prazerosas, que estimulem crescimento e confiança e orienta a diminuir o contato com determinadas mídias que passam mensagens distorcidos sobre peso, corpo, emagrecimento e alimentação;
  • Estimula o desenvolvimento de habilidades de organização e planejamento da alimentação.

Como funciona a nutrição comportamental

A nutrição comportamental possui abordagem de aconselhamento nutricional, para muito além da prescrição de dietas.

Considerando que os esforços dos programas atuais a favor da saúde não têm dado resultado na melhora do excesso de peso da população, podemos inferir que, claramente, a prática de dietas não é o melhor caminho para um peso mais saudável.

O peso corporal não é um comportamento, não é ele que tem que ser mudado. O peso é só o reflexo do comportamento.